Após 26 dias, militantes encerraram a greve de fome pela liberdade de Lula

Sete ativistas fizeram  greve de fome no Brasil. O protesto foi contra o caos político no país, contra a pobreza crescente e uma justiça que ignora a opinião pública e pela liberdade do ex-presidente Lula.  Eles foram ao extremo, colocaram a suas vidas em risco na sua luta por uma sociedade melhor.

Os sete grevistas durante ato de solidariedade ao protesto, neste sábado (25), em Brasília (DF) / Leonardo Milano/Midia Ninja

A greve foi encerrada no dia 25 de agosto, depois de 26 dias de duração.  Após ficarem 26 dias sem comer, alguns dos grevistas já se mostravam debilitados, e uma das grevistas chegou a ir para o hospital.

Nesse período, eles foram recebidos pessoalmente por dois ministros do STF (Supremo Tribunal Federal), Ricardo Lewandowski e Rosa Weber. Os grevistas também receberam uma carta de agradecimento de Lula, acreditam que seus objetivos foram cumpridos: denunciar o “golpe”, como se referem ao impeachment de Dilma Rousseff, e a prisão do ex-presidente, que dizem ter ocorrido sem provas.

Os grevista receberam inúmeras manifestações públicas,  a ACT Alliance, maior aliança mundial de igrejas protestantes e ortodoxas trabalhando em questões humanitárias, de desenvolvimento e de incidência política em todo o mundo, enviou uma carta direcionada à ministra do Supremo Tribunal Federal (STF), Cármen Lúcia, abordando a situação do grupo de pessoas que estão em greve de fome em Brasília. O organismo demonstra preocupação em relação ao tratamento que tem sido dado ao movimento e cita “o crescente clima de tensão vivido pelo país”.

“É com preocupação que estamos acompanhando, desde Genebra, a delicada situação de polarização e alocuções ao ódio dentro da sociedade brasileira. Este é um momento em que o bom senso e o altruísmo se tornam fundamentais para impedir uma escalada de violência que pode levar a consequências irreversíveis. Estamos acompanhando, de maneira específica, os desdobramentos da greve de fome realizada por um grupo de lideranças sociais, especificamente Frei Sérgio Görgen, Rafaela Alves, Gegê Gonzaga, Zonália Santos, Jaime Amorim, Vilmar Pacífico e Leonardo Soares”, inicia a carta.

A seguir, leia a íntegra da carta:

http://www.conic.org.br/portal/noticias/2768-act-alliance-envia-carta-a-ministra-carmen-lucia

A greve chegou ao fim

A greve teve início no dia 31 de julho e foi encerrada no dia 25 de agosto.  O anúncio foi feito durante um ato de solidariedade promovido por parceiros e pelas organizações envolvidas no protesto.

Reunidos no Centro Cultural de Brasília (CCB), onde estavam alojados desde o início do protesto, os grevistas apresentaram um manifesto que oficializou o fim da greve. No documento, eles afirmam que a greve cumpriu o objetivo e contribuiu com a luta pelo enfrentamento ao golpe de 2016 e seus desdobramentos.

“Nos sentimos vitoriosos, pois assim se sentem os povos que lutam, e tivemos acúmulos importantes para o conjunto da luta popular”, diz o manifesto.

Os grevistas ressaltaram que o protesto também se coloca nas trincheiras da luta pela soberania popular, pelo controle dos bens nacionais, como o petróleo, e pelo direito do povo de decidir os rumos do país.

Nesse sentido, reforçaram o discurso pela libertação do ex-presidente Lula (PT), que está preso em Curitiba (PR) desde 7 de abril, e apontaram a existência de uma “ditadura do Judiciário” ao mencionarem o Supremo Tribunal Federal (STF).

A Corte vem sendo fortemente pressionada a votar as ações declaratórias de constitucionalidade (ADCs) que questionam a legalidade da prisão após condenação em segunda instância. Além do ex-presidente, outras cerca de 150 mil pessoas estão presas sem que tenham sido julgadas pela terceira instância da Justiça.

O não cumprimento, por parte do Brasil, da resolução do Comitê de Direitos Humanos da ONU sobre a situação de Lula também é mencionado no manifesto em forma de denúncia.

“Lula é inocente e sua prisão tem caráter político”, destacam os grevistas, no documento.

Confira o Manifesto na íntegra:

Com certeza de dever cumprido, ativistas encerram greve de fome

Depois de 26 dias de ato, grevistas conclamam povo a seguir mobilizado, construindo a resistência democrática a partir das ruas

Desde 31 de julho os ativistas Jaime Amorim, Zonália Santos, Rafaela Alves, Frei Sérgio Görgen, Gegê Gonzaga, Vilmar Pacífico e Leonardo Soares estão em Brasília, sem receber nenhum tipo de alimentação, evocando o instrumento de luta e resistência popular da greve de fome para mobilizar o povo, despertar o debate político, forçar o debate com o poder judiciário em sua mais alta instância e reafirmar que em uma Estado Democrático a vontade do povo deve sempre ser respeitada. Ao decidir pela interrupção da greve, os sete acolheram o chamado de suas organizações para retornar às bases e fomentar com o potencial simbólico do ato praticado a luta popular.

O ato que encerra a greve de fome não representa um final nesta jornada, ao contrário, é uma nova etapa que começa, sintetiza Jairo Amorim, que se pronunciou em nome do grupo. Alojados no Centro Cultural de Brasília (CCB), os grevistas receberam de suas organizações e também das instituições e grupos que os apoiaram desde o primeiro dia ou que somaram-se ao ato ao longo da jornada, uma celebração que reflete a gratidão pelo exemplo e reafirma o compromisso popular de multiplicar a mensagem e o desafio que foram apontados ao longo de toda a greve.

Ao longo dos 26 nós conseguimos fazer um grande debate com a sociedade brasileira, denunciar a volta da fome, mostrar para o mundo as consequências do golpe, o aumento da violência, o abandono dos mais pobres por parte do estado e o papel que o poder judiciário exerceu para que isso acontecesse -, declarou Amorim. “O judiciário cumpriu um papel decisivo a favor do golpe e contra o povo, mostramos para todos esses cenários em que se conduziu a judicialização da política e a politização do poder judiciário, o que é incompatível com uma sociedade democrática -, acrescentou. Para os sete ativistas tão importante quanto dialogar com os Ministros do Supremo, foi conquistar a solidariedade ativa da população, que ampliou através de suas redes pessoais as mensagens dos grevistas que repercutiram quase que exclusivamente pelos canais de mídias progressistas, sendo propositalmente bloqueados pelos principais canais de comunicação da mídia burguesa.

– Ao sair da greve temos consciência de que cumprimos um papel importante, ajudamos a mobilizar e organizar o povo, colocamos em pauta novas perspectivas para esse país, evocamos a ideia de um Brasil-Nação para todos os brasileiros -, afirma Amorim. “Nós saímos da greve para um outro patamar da luta, seguiremos lutando pela liberdade de Lula, mas olhamos para a frente vislumbrando o Congresso do Povo e a consolidação da Frente Brasil Popular como um instrumento de desenvolvimento político e social para toda nossa gente, abrigando a nova militância que surgiu da resistência ao golpe e vem crescendo cada vez mais, uma militância sem vícios, que está disposta a ajudar a construir uma nova história possível e necessária.

Por Comunicação da Greve de Fome