Carta do povo Guarani Kaiowa do Tekoha Kunumi Verá Tekoha Guasu Dourados Amambai Pegua I Caarapo – MS, dia 15 de julho de 2016

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sim

 

Após a realização da segunda Missão Ecumênica em Apoio aos Guarani-Kaiowá no MS, foi escrita a Carta denúncia dos Guarani Kaiowá  por  Elson Canteiro Gomes liderança jovem Guarani  Kaiowá de Caarapó  e firmada pelos integrantes da Missão Ecumênica. o Pad é uma das entidades que integram a Missão.

 

 

O estado olha para nós e pede calma, mas nosso povo olha para o estado e pede pressa no prosseguimento da ação da demarcação de nosso território denominado de Caarapó: que não abriremos mãos de nossa terra (55.000 mil hectares). Exigimos que ela seja demarcada pela tradicionalidade.

A Constituição Federal de 1988, artigo 231, garante o nosso direito a demarcação de nossas terras tradicionais, garante a nossa organização de com bem entendermos. No artigo 232, os índios, suas comunidades e organizações, são partes legítimas para ingressar em juízo em defesa de nossos direitos e interesses, intervindo o ministério público em todos os atos do processo. O nosso povo sabe que existe a constituição e temos que enfrentar e fazer valer a constituição.

  O governo brasileiro ameaça o nosso povo de extermínio e acabar com a demarcação de nossas terras indígenas. O estado tem que cumprir o seu dever de proteger os territórios indígenas. Diante dessas ameaças de massacre do nosso povo não iremos nos calar, não iremos enfraquecer a nossa luta pelo direito à terra, pela sobrevivência do futuro de nossas crianças. 

  Os nossos ancestrais viveram nesse território há mais de 516 anos, muitos morreram e foram enterrados aqui, essa terra tem dono, essa terra é nossa. Este país chamado Brasil que foi denominado pelos homens brancos, esta manchado pelo sangue do nosso povo. Mesmo diante de tanta dor da morte e violência, o nosso povo continua resistindo e lutando corajosamente sem desistir da demarcação de nosso território. 

  Decidimos coletivamente na grande assembleia do nosso povo Guarani Kaiowa (aty guasu) lutar firme contra o marco temporal, estamos conscientes de que a nossa luta é que faz valer a lei. A história de vida de nosso povo não começa no ano de 1988 em diante, a nossa história de vida existe há mais de 500 anos. O marco temporal não é uma opção certa para demarcação de terras indígenas, quando a portaria (303) for colocada em prática revisando todas as terras indígenas já demarcadas. Assim o governo mostra que vai esconder a morte, o massacre e o roubo de nossas terras antes de 1988 a data da proclamação da constituição federal. O nosso povo entende que, se o marco temporal for colocado em prática aproximadamente 370 mil índios serão obrigados a viver fora de seus territórios tradicionais. Isso equivale 1/3 da população indígena do país, isso o nosso povo nunca vai aceitar.

Diante desse massacre cruel dos grandes produtores rurais contra o nosso povo, os Guarani Kaiowa não se recuarão e nunca se renderão. Quanto mais avançarmos dando passo para frente é um para dentro de nosso tekoha tradicional.

De hoje em diante, o mundo saberá que os Guarani Kaiowá já tem uma atitude de retomar o nosso tekoha tradicional, por que somente assim iremos garantir a demarcação de nossas terras. Temos consciência de que, sempre na retomada de nosso tekoha perdemos a nossa vida por lutas, pelos nossos direitos, pela justiça e liberdade que a notícia espalhe pelo mundo. De que o nosso povo Guarani Kaiowá nunca irá deixar de lutar, que ira dar o ultimo suspiro e derramamento de sangue para defender o nosso território.

Assim morreram nossas lideranças, deram suas vidas por nós. Dessa forma também morreremos juntos, pois somente assim não haverá mais luta, a luta do povo originário dessa terra.  

 A nossa luta, o homem branco, a sociedade não indígena precisa entender que o nosso povo luta não somente pela terra, lutamos também para defender a vida e também o nosso planeta terra. Lutamos pelo bem viver dos povos indígenas.

 Afirmamos aqui que o nosso sonho nunca vai morrer, sempre irá brotar a cada momento, a cada segundo a esperança de vivermos em nossa terra sagrada para viver o momento e o modo de ser e de viver como um povo que sempre viveu no passado a liberdade e a felicidade, só queremos voltar para trás a viver o nosso futuro. 

Com a demarcação de nossos territórios (Tekoha Guasu) começaremos um futuro mais brilhante que nós tanto sonhamos: a nossa vitória!!!

 

Respeitosamente assinam o povo Guarani Kaiowa. 

Carta denúncia dos Guarani Kaiowá escrita por  Elson Canteiro Gomes liderança jovem Guarani  Kaiowá de Caarapó  e firmada pelos integrantes da Missão Ecumênica.